Por que elegemos “O mundo flutuante” como o livro do mês de Janeiro?

Os modismos não são necessariamente ruins, ainda que o termo seja pejorativo: remete à ideia de apego à frivolidade das modas, sempre passageiras. Mas às vezes as ondas podem trazer algo que fica, que é mais consistente ou que pelo menos não se limita a tirar o máximo de proveito comercial enquanto não é submergido pela próxima vaga. Com a saga Crepúsculo e seu sucesso mundial, potencializado pelo cinema, multiplicaram-se narrativas que retomaram o vampiro – um dos mitos modernos mais recorrentes e fortes, sintetizado pelo escritor irlandês Bran Stoker (1847-1912) no romance Drácula, também (e diversas vezes) adaptado para a telona. A diferença dos vampiros de hoje é que eles foram, digamos, domesticados. Há agora “vampiros do bem”, que não sugam sangue humano, que são bondosos, capazes de amar simples mortais e de se sacrificar pelos que antes seriam suas vítimas. Vampiros que combatem outros vampiros – estes, “do mal”, demoníacos, essencialmente perversos – e que, no fundo, são tão humanos quanto nós, apesar ou justamente por causa das diferenças. Em O mundo flutuante, de Carlo Frabetti, livro do mês escolhido pela SM, a princípio a história parece repetir, em versão juvenil, o que se vê atualmente nessa revitalização do vampiro: Bia, uma menina miúda de onze anos, que pelo tamanho parece ter menos idade, foge de casa após mais uma sessão de violência doméstica – seu pai sistematicamente espanca sua mãe. A cena inicial se passa à noite, num parque, onde, sozinha e perdida, ela é salva de um assalto por um magro, alto, pálido e enigmático homem de preto. Em poucas páginas saberemos que se trata de Corvo, vampiro que acolhe a menina em – claro! – sua velha mansão semiabandonada. O próprio vampiro trata de desfazer algumas lendas em torno dessa criatura, o que o humaniza cada vez mais – mas ele não deixa de sugar sangue humano, ainda que o faça em doses homeopáticas. Sábio, Corvo aconselha Bia e com ela vai travando encantadora amizade, enquanto se envolvem em inúmeras peripécias, inclusive com outros seres enigmáticos ou apenas diferentes que povoam o mundo. Justamente porque não tem preconceitos, Bia logo aprende a conviver com todos e a aceitá-los como são – o que não significa concordar com tudo que fazem. Estão aí as diferenças desse livro em relação ao modismo vampiresco: O mundo flutuante não oculta as contradições e agruras da vida. Pelo contrário, por meio da fantasia e da aventura, estimula o leitor adolescente a pensar sobre tudo o que, enfim, caracteriza a vida adulta: o sofrimento, a dor, a morte, o amor, a amizade, o carinho, o respeito, a lealdade, a honestidade, a violência… Tudo isso por meio de uma narrativa fluente, cativante, que prende a leitura até o final “aberto”, que instiga o leitor a desejar o próximo volume.

Clique aqui e conheça o projeto de leitura que Edições SM elaborou para o trabalho com esse livro.

Share this:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Digite seu nome, e-mail e um comentário.

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>