Tolerância

Tolerância não significa aceitar o que se tolera. (Mahatma Gandhi)

O termo tem origem na palavra tolerare, que significa suportar pacientemente. Mas será possível aceitar que a paciência suporte a indiferença? Poder-se-á tolerar que todas as atitudes sejam consideradas legítimas? Poderemos incorrer num relativismo “tolerante”, onde a verdade e a mentira se equivalem? Talvez se deva considerar uma tolerância mais próxima de algo que dá pelo nome de… aceitação. Vejamos.

Até onde devemos aceitar a diferença? Poderá uma cultura sobreviver se tolerar subculturas que defendam uma cultura de oposição? Que diferença haverá, por exemplo, entre tolerar e aceitar que alguém seja homossexual, ateu, ou adepto de um time, que compete com o nosso time…? Que diferença haverá entre tolerar a passividade de um educador perante atos inaceitáveis e aceitar que se deva colocar limites a uma “ditadura da infância”, ao colapso ético face às exigências e reivindicações dos infantes? A tolerância confundida com a permissividade não permitirá que os tolerados imponham as suas regras (ou caprichos), negando a assimetria entre direitos e deveres?

Será oportuno saber como alguns autores se posicionam perante essa tensão entre tolerar e aceitar. Edmund Burke avisa-nos de que existe um limite em que a tolerância deixa de ser virtude. Jaime Luciano Balmes diz-nos que não é tolerante quem tolera a intolerância. Karl Popper sintetiza a tensão numa frase: “Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância”. E dois dos maiores mestres portugueses do século XX, assim se pronunciam: “Por que tolerar? Parece-me ainda pior do que perseguir. No perseguir há um reconhecimento do valor” (Agostinho da Silva); e “Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro” (José Saramago). Que me seja perdoada a presunção, mas me atreverei a fazer eco das palavras do saudoso escritor, para contextualizar a tensão entre tolerância e aceitação no contexto escolar.

É comum escutar a expressão educação democrática. Correndo risco de suscitar alguma polêmica, arrisco perguntar: As decisões tomadas pelo corpo de educadores de uma escola deverão ser tomadas por maioria (democrática), ou por consenso? A minoria a quem foi Imposta uma decisão democrática respeitará (aceitará) tal decisão, cumprirá aquilo que foi decidido? Dito de outro modo: as decisões deverão ser pautadas na tolerância, ou na aceitação?

Os brasileiros parecem tender à tolerância. Talvez por ser mais cômodo ir ao aeroporto, xingar o time que perdeu uma partida de futebol, do que manifestar na rua, na praça, em todo o lugar, a não aceitação do enriquecimento ilícito, da corrupção, de crimes contra o erário público. É mais fácil do que intervir quando um energúmeno joga uma lata vazia pela janela do carro, ou quando uma justiça obtusa permite que o político corrupto beneficie de impunidade. O péssimo exemplo de significativa parte da classe política influencia o caráter do povo, polui as mentes com valores egoístas. O povo brasileiro sofre de uma bovina tolerância face aos atos imorais dos indigentes morais, que conspurcam a nobre arte de fazer política.

Li (já não sei onde) que a ética assemelha-se a uma reta: a menor distância entre os pontos A e B, onde A é o Ideal e B, a Ação. Deveremos tolerar a incoerência entre o pensar e o fazer, ou aceitar a necessidade de fincar barreiras perante procedimentos moralmente contraditórios?

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

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