Solidariedade

Sejamos irmãos porque estamos perdidos num pequeno planeta dos arredores de um sol suburbano de uma galáxia periférica de um mundo privado de centro. (Edgar Morin)

Reflitamos sobre uma dura realidade: a quantidade de suicídios verificados neste nosso conturbado mundo equivale ao dobro do conjunto de mortos por guerra e fome. Quem se interroga sobre as causas de ambas as tragédias? Quem reflete sobre a ausência de uma ética apoiada na bondade e no apoio mútuo?

Naquela idade em que começamos a sentir a necessidade de dar sentido à vida (ou de sair dela…), é preciso que aconteça um feliz encontro com seres que ensinam que a verdadeira vida é um fraterno encontro. E há tantos desencontros nesta vida… Ao vivo, a televisão transmitia um atropelamento, numa rua de São Paulo: um corpo no meio da rua e condutores desviando as seus automóveis daquele obstáculo, alguns quase esmagando a inerte vítima do acidente. Na calçada, transeuntes alheios ao drama. Até o momento em que um deles faz sinal aos carros para que parem, vai até junto do corpo e pede para chamar uma ambulância. Interrogo-me: Este software humano será o único, ou poderemos aspirar a algo diferente? Quero crer na possibilidade de uma sociedade mais fraterna. E escuto o mestre Morin, que nos fala da necessidade de uma metamorfose, de uma reforma moral, lograda através de profundas mudanças no modo de educar e numa economia ecológica e solidária. Ele diz-nos que solidariedade é a palavra que pode modificar positivamente o futuro da humanidade. Curiosamente, Morin considera que o país com maiores possibilidades de liderar essa metamorfose solidária é o… Brasil.

Quando se substituirá um “ou” solitário pela coordenação do “e”, para que não haja moradores dos jardins versus zona leste, mas apenas brasileiros unidos numa tarefa comum? Por que não imitamos os japoneses, vítimas de um terrível tsunami? Ninguém furou fila para assistência médica. Compartilhou-se a falta de água, a fome, a tristeza, a morte. Não houve saques, mas solidariedade.

O presidente da assembleia da escola era um mocinho muito autocentrado. Nas reuniões, ele somente dava a palavra aos amigos e não assumia responsabilidade coletiva, em situações que justificavam essa atitude. Foi criticado por muitos dos alunos que o elegeram. Reagiu, dizendo que se demitiria. Então, as crianças tomaram uma decisão surpreendente: decidiram que o presidente deveria continuar no cargo. Mas que a condução das reuniões deveria ser participada pelos restantes membros da mesa da assembleia, de modo a ajudar o presidente a aprender a respeitar os outros e a respeitar-se.

Ao longo daquele ano letivo, o presidente, que não foi demitido, viveu múltiplas situações de ajuda mútua. No final da última assembleia daquele ano, deitou discurso, agradecendo aos colegas a oportunidade de ter aprendido a ser solidário. Em linguagem de gente jovem, disse, mais ou menos, isto: Que não se importava de não ser o primeiro, para que todos fossem os primeiros. Diz-nos o mestre Johann Heinrich Pestalozzi que a educação moral não deve ser trazida de fora para dentro da criança, mas deve ser uma consequência natural de uma vivência moral. A compreensão e a aceitação do outro resulta de uma aprendizagem da verdade, na arte de conviver. Desde tenra idade, a solidariedade na solidariedade se aprende.

Um menino sentou-se no colo de um idoso, que chorava a morte da sua esposa. O idoso susteve o choro e sorriu. Quando a mãe da criança lhe perguntou o que tinha dito ao velhinho, a criança respondeu: Nada. Só o ajudei a chorar.

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

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