Responsabilidade

A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. (Saint-Exupéry)

A “Declaração universal para a responsabilidade humana” nos diz que a humanidade, em toda sua diversidade, pertence ao mundo vivo e participa de sua evolução, que os seus destinos são inseparáveis. E propõe princípios gerais, que podem servir de base para um novo pacto social. Eis um exemplo: O exercício do poder só é legítimo quando serve o bem comum e quando é controlado por aqueles sobre os quais esse poder é exercido; a busca da prosperidade não pode ser desvinculada de uma partilha justa das riquezas; os saberes e as práticas só adquirem todo seu sentido quando são compartilhados e usados em prol da solidariedade, da justiça e da cultura da paz. Isso mesmo: é impossível ser feliz sozinho
Como estamos longe de concretizar os princípios da Declaração! Se um ser humano pode reivindicar seus direitos, deve, igualmente, manifestar consciência de que as suas responsabilidades são proporcionais aos direitos que reivindica, responsabilidade pelo outro, compromisso.

Observo carros ultrapassando a fila pelo acostamento, mentes “enfileiradas” segundo valores inculcados por práticas sociais nocivas. Vejo furar a fila, no banco, na repartição pública. Olho as inscrições pichadas nos banheiros de serviços públicos, manifestações de indigência mental, irresponsabilidade daqueles que ignoram que a assunção da dignidade humana também passa pela utilização de um banheiro.

Em uma cidade do interior, ao lado da placa de aviso de quebra-molas, vi uma placa repleta de “nãos”: Não urine na calçada / Não jogue lixo no chão /  Não faça sexo na praça / Não saia atirando. Uma universidade ofereceu viveiros de plantas a escolas da sua região, e somente uma dessas escolas manteve o seu viveiro… vivo. Nas restantes, as plantas secaram. Parece que as tarefas que exigem algum sacrifício são de responsabilidade dos outros. Se apontamos algo errado a um aluno, é provável que a resposta seja: Não fui eu!

A modernidade projetou-nos em uma ética individualista, na qual se pretende conservar a benesse da liberdade, ignorando a prática da responsabilidade, algo que lhe é inerente. A Educação formal fragilizou o conceito de ética, e as  transgressões são justificadas como regras do jogo para a sobrevivência. Urge, por isso, que estâncias educacionais, como as escolas, concretizem uma Educação integrada na pólis, o exercício da corresponsabilização na formação, uma formação estruturante da vida pessoal e comunitária. Como diria Augusto Boal, “cidadão não é aquele que vive em sociedade – é aquele que a transforma”. E outro mestre de nome Carlinhos nos diz que cada pessoa que passa pela nossa vida não nos deixa só, deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. A nossa vocação é cooperar, ser corresponsável. Ninguém existe sozinho, não há entidades vivas isoladas em si.

Se uma escola, no seu projeto político-pedagógico, assume, perante as famílias dos seus alunos, que deles farão seres responsáveis, deverá assegurar coerência entre o projeto escrito e a prática efetiva do projeto. Isto é, terá de encontrar modos de agir com responsabilidade. Muitas escolas o conseguem. Mas… e as outras? Visitei uma “Escola de Aperfeiçoamento de Profissionais da Educação” (era assim que rezava a placa ostentada no pórtico de entrada). Havia muito lixo espalhado pelo chão dos corredores e nas salas de aula. Quando uma professora me perguntou por que razão as escolas não mudam, lacônico, eu respondi:

Olha à tua volta. E olha para o chão!

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

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