Qualidade de Vida

A aquisição desenfreada de brinquedos colaborou muito para que o ato de brincar ficasse em segundo plano. Resultado: as crianças, na atualidade, quando querem brincar não podem e quando podem não querem ou não sabem mais. (Rosely Sayão)

Certamente todo mundo conhece a história do pescador que, tendo acabado de fisgar três peixes, considerava ter alimento suficiente para a família naquele dia e ia para casa, saborear o dia, saborear a vida. Alguém, contando essa história, acrescentou que esse pescador era um “selvagem”. Mas será selvagem quem recusa ter a subjetividade industrializada, quem se mantém alheio aos ditames de uma economia predadora?

As lojas anunciam os presentes para o Dia das Crianças, para o Natal ou para assinalar outras efemérides apaziguadoras da febre consumista. As vitrines estão repletas de Barbies e laptops da Xuxa… Um pai oferece um celular de última geração à filha, que acaba de completar cinco anos de idade. Os jovens creem que, efetivamente, escolhem aquilo que usam a as crianças são manipuladas pela mídia. Quando chegará o dia em que todas as estações de televisão seguirão o exemplo daquela que aboliu comerciais nos intervalos de programas destinados à infância?

O Brasil ocupa o primeiro lugar entre todos os países do mundo que praticam cirurgia plástica para jovens. O jornal A Folha de São Paulo, de 7 de abril de 2011, noticiava a venda de sutiã com enchimento para meninas de seis anos! Uma cidade brasileira, símbolo do desenvolvimento econômico, contava, em 1960, com seis livrarias e uma academia de ginástica. Agora, tem mais de sessenta academias de ginástica e três livrarias. A mesma cidade registra um índice significativo de endividamento dos jovens. No auge do triunfo do hedonismo, a felicidade restringe-se à satisfação de desejos reciclados. Para os escravos do consumismo, renunciar a alguma coisa prazerosa parece significar perda de liberdade. Talvez nunca tivessem olhado os lírios do campo…

Ninguém nasce consumista. O consumismo é um hábito mental instalado. Onde está a Educação para um consumo crítico, inteligente? Quando se ensinará a comer, a consumir, quando se aprenderá a viver? Se não aprendermos na escola, onde e quando iremos aprender? Dar a conhecer os perigos do fast food é tão necessário quanto o saber colocar a pontuação correta em um texto. Desenvolver a sensibilidade do aluno, de modo a que ele seja sensível a uma suíte de Bach é tão necessário quanto saber fazer multiplicações por dois algarismos.

Os 20% mais ricos da população mundial consomem 86% de todos os serviços e produtos. Os 20% mais pobres consomem apenas 1,3%. Os Estados Unidos, que têm 5% da população mundial, utilizam 25% dos recursos mundiais. Poderemos ignorar que o crescimento econômico e social, da forma como acontece, promove o acúmulo de capital, de modo excludente e com impactos ambientais irreparáveis?

Urge que os educadores, frequentemente, se interroguem: qual será a relação entre Educação e vida sustentável? Como se poderá gerar responsabilidade, atitudes de autorreflexão e ações éticas nos alunos? Ensinamos os meus alunos a prevenir a obesidade mórbida ou a distinguir música de lixo sonoro? Ajudamos os jovens a se defenderem da febre consumista? Contribuímos para que tenham uma boa qualidade de vida? Para que os cidadãos tenham uma boa qualidade de vida, é preciso que sejam, verdadeiramente, cidadãos. Insistindo no óbvio: para que haja uma boa qualidade de vida, é necessária… uma boa Educação.

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

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