Projetos vitais e juventude

O psicólogo norte-americano William Damon, uma das maiores referência mundiais em Psicologia do Desenvolvimento, coordena na Universidade de Stanford (EUA) um grupo de pesquisas que vem se dedicando a estudar nos jovens os princípios do Purpose (propósito, em tradução literal na língua portuguesa). Em português talvez a melhor tradução para esse termo seja Projeto Vital, pois o conceito de Purpose pressupõe um desejo de fazer diferença no mundo, de realizar algo de sua autoria que possa contribuir para os outros, para a sociedade.

Para Damon, Purpose (ou Projeto Vital) é uma intenção estável e generalizada de alcançar alguma coisa que é ao mesmo tempo significativa para o self e gera consequências no mundo além do self.

Essa definição tem como base alguns pontos essenciais para a sua compreensão. O primeiro deles está relacionado ao fato de que um projeto vital compreende sempre metas e objetivos a serem atingidos no longo prazo e que se caracterizam por uma certa estabilidade. Um projeto vital pode até se modificar ao longo do tempo, mas deve ser estável o suficiente a ponto de conduzir o sujeito ao planejamento de ações presentes e futuras no intuito de atingir seu objetivo. Dessa forma, o projeto vital se diferencia de outras metas mais imediatas e cotidianas – como, por exemplo, chegar a tempo para determinado compromisso. Isso evidencia que não é qualquer meta ou objetivo almejado pelo sujeito que pode ser considerado um projeto vital.

Um segundo ponto importante relacionado ao conceito apresentado pelos autores reside no fato de que o projeto vital, embora contemple uma busca pessoal pelo sentido da vida, deve contemplar também uma orientação “externa”, um desejo do sujeito de fazer a diferença no mundo, de contribuir para aspectos que transcendem sua individualidade, seu próprio eu.

Por fim, um projeto vital não deve ser visto apenas como um objetivo por si só. O projeto é sempre constituído por metas que orientam as ações do sujeito. Essa busca pode estar relacionada a elementos materiais ou não materiais, internos ou externos ao sujeito, e pode também envolver metas não necessariamente atingíveis. Em outras palavras, o que caracteriza um projeto vital não é necessariamente sua possibilidade de concretização, mas o fato de conferir ao sujeito um senso de direção, um objetivo a ser buscado.

Em síntese, um projeto vital (purpose) configura-se como uma razão mais profunda que se apresenta como pano de fundo para os objetivos e motivos mais imediatos, e que, portanto, justifica as ações, preocupações e escolhas do sujeito. É nesse sentido que, segundo Damon, o projeto vital pode ser entendido como um grande objetivo da vida do sujeito, que embasa suas decisões e ações e, dessa forma, manifesta-se no comportamento do mesmo.

Assim, projetos, objetivos, finalidades dão sentido à vida das pessoas, organizam pensamentos e ações e estão relacionados com os sistemas de valores das pessoas. Se de forma intencional e dialética os projetos vitais e finalidades de vida das pessoas atendem a um duplo objetivo – de buscar simultaneamente a felicidade individual e coletiva –, pode-se falar que se baseiam em princípios de ética. Pode-se estar diante de valores morais ou o que William Damon denomina “projetos vitais nobres”.

Essa perspectiva deve orientar, igualmente, as práticas educativas em educação moral nas escolas. O trabalho de promoção e tomada de consciência de projetos vitais podem se constituir como elemento importante no processo de desenvolvimento dos jovens, possibilitando a eles a construção de um sentido ético na sua vida, o engajamento em objetivos que sejam significativos a si e ao mundo, bem como a satisfação em suas ações, escolhas e planos.

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

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