Não Violência

A violência é a manifestação da impotência (Rollo May)

 Uma professora amarrou os pés e as mãos de um aluno de seis anos, prendeu-o a uma cadeira e amordaçou-o com fita adesiva na frente dos colegas da classe, alegando que queria que o menino ficasse quieto porque precisava de silêncio na aula. Um aluno espetou uma faca no coração do professor porque este lhe deu uma nota baixa. Uma diretora foi xingada e pontapeada. Um jovem deu um tiro na professora e suicidou-se. A polícia militar patrulhou o campus da universidade. Quantas mais situações aberrantes poderiam aqui ser mencionadas?!

Recebi um e-mail vindo de uma professora: “Querido amigo, um aluno da nossa escola foi assassinado. Quando se trabalha na periferia é de se esperar que alunos envolvidos no tráfico tenham esse fim, não é mesmo? Porém o Juan não era esse tipo de menino, era um bobão. Ele provocava a ira de seus colegas e sempre apanhava, nunca batia. Era esse tipo de brigão, que queria mesmo era ser visto, pelo menos. A morte dele foi um golpe que nunca imaginei pudesse doer tanto. A notícia que temos é de que ’foi morto por engano, parecia-se com um traficante’. Dezesseis anos de um grande engano! Já fui ao enterro de dois jovens que foram meus alunos. Eram bagunceiros, saíram da escola sem saber ler. O que poderia fazer por eles? Fica a dor de saber que, na segunda-feira, a vida continua e que na escola temos outros Juans que estamos ajudando tão pouco! Só me sobra a dor. E essas palavras que de nada valem”.

Sei que há quem tente escamotear a morte, se quem morreu foi dispensado em horário de aula, por falta de professor, e acabou sendo morto… por engano. Mas também sei que há educadores indignados, que exigem ações públicas promotoras de paz e segurança. Sei que o Brasil da Educação está gestando humanidade, que a velha escola há de parir uma nova Educação. Eu sei!

O Dia Internacional da Paz foi instituído em 1981. A Assembleia das Nações Unidas decidiu, por unanimidade, proclamar esse dia como um dia mundial de não violência, convidando os povos, organizações e nações a desenvolverem práticas da paz em uma data comum, embora a construção de uma cultura de paz seja um processo contínuo. Por vezes, para ter paz, é necessário incorrer no paradoxo de reclamar na rua, como fizeram os povos do Egito, da Tunísia, da Líbia. Melhor seria que, no Brasil, tal não fosse preciso fazer… mas será preciso assumir uma estratégia de não violência, seguir os princípios do mestre Gandhi: é possível lograr a paz através de uma “teimosia pacífica”.

A escola e a família podem exercer grande influência na formação da pessoa, mas a decisão final depende do indivíduo. É uma prática cultural voluntária, fruto de opções. É bem conhecida a história que um velho índio contava ao seu neto. Falava de um combate entre dois lobos, que vivem dentro de todos nós. Um é mau, o outro é bom. O neto perguntou: “Qual o lobo que vence?”. O velho índio respondeu: “Aquele que você alimenta”.

Outro e-mail chegou trazendo notícia de mais uma tragédia: “Estou arrasada! Mataram mais um dos nossos meninos! O Emersom tinha 15 anos, mas parecia ter dez, naquele caixão. Ele era só uma criança perdida. Na escola era um bom menino, mas na vida não teve opção! Eu sinto que a família dele falhou e que não falhou sozinha. Mas ele pagou o preço sozinho! Foi mais um drogado retalhado a faca. Ninguém se importou, nem vai se importar. Senti-me impotente naquele velório. Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance, mas não foi suficiente. Ele já estava marcado para morrer. Peço a Deus para tirar esse amargo do meu coração e me dar força para continuar lutando por essas crianças. Ajude-me!”.

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

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