Meio Ambiente

À memória de Walter Steurer, no primeiro aniversário do seu falecimento

 Quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, vocês vão entender que dinheiro não se come. (Greenpeace)

É provável que um jovem passe cerca de uma década estudando a necessidade de cuidar dos recursos naturais, em manuais didáticos, em uma escola que se mantenha na margem de uma possibilidade concreta de intervenção. É provável que uma criança ingresse na primeira série em uma escola ao lado de um córrego poluído e saia de lá, ao cabo de alguns anos, com o córrego ainda mais poluído. É bem provável que os seus professores atravessem décadas de aulas sem lançar um olhar sequer para além dos muros da escola…

A Terra está doente porque nós estamos doentes. E doente continuará, enquanto a nossa maneira de viver for reproduzida nos valores que muitas escolas insistem em transmitir. A racionalidade que prevalece na maioria das práticas escolares augura tempos ainda mais sombrios e de graves conflitos socioambientais. Poder-se-ia pensar que uma escolarização prolongada propiciaria uma maior consciência ambiental, mas isso raramente acontece, por efeito de uma escola distante da vida real.

Entrei no banheiro de um aeroporto, lugar de passagem de executivos, pessoas de “formação superior”, supostamente na posse de muitos conteúdos de Educação ambiental. A água escorria abundante de uma torneira avariada. Nenhum daqueles executivos se importou com o fato. Na parede, por cima da máquina de onde eram arrancadas resmas de papel, jogado no lixo quase seco, havia um apelo: “Senhores usuários, sejam educados. Duas folhas são suficientes para enxugar as mãos”.

O americano Richard Louv criou um novo conceito: “transtorno da falta de contato com a natureza”. Verificou a tendência, cada dia mais evidente, de as novas gerações se afastarem do contato com a natureza, do qual resulta um conjunto de problemas comportamentais. As crianças têm bons motivos para ficarem dentro de casa: computador, video games, televisão. Gastam, em média, 44 horas por semana jogando polegares sobre mídias eletrônicas. Por seu turno, as escolas levam-nas a explorar o ambiente… em livros didáticos.

Urge instituir novas práticas sociais nos lugares onde a Educação do caráter acontece. Consciente dessa necessidade, já pensei em fazer um Guia quatro rodas dos bons exemplos educacionais do Brasil, pois conheço muitos. Dele constaria, certamente, uma das cartas que o amigo Walter escreveu: “Por muito tempo tratamos a Terra como algo a nosso serviço, que podíamos aproveitar ilimitadamente. Nunca pensamos na Terra como sendo nós também parte dela, de seu complexo sistema de vida. O Projeto Âncora tem intensificado cada vez mais o trabalho de consciência ecológica com as crianças e jovens. Acreditamos que esses meninos e meninas, além de estarem abertos, mais que os adultos, às necessidades de mudanças em comportamentos e atitudes, são capazes de influenciar suas famílias. Nossos índios detêm a sabedoria capaz de nos salvar e de salvar o Planeta, são capazes de viver em liberdade, tirando da Terra somente o necessário, com uma organização social que não conhece a corrupção, em que o enriquecimento não faz parte das aspirações pessoais, em que o bem estar coletivo está acima de tudo. Em nosso dia a dia, podemos usar a Carta da Terra como nosso código de conduta. Nos alegremos por viver neste momento da história humana, em que nos é dada a possibilidade de mudar o rumo da história e salvarmo-nos da destruição da vida”.

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

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