Compartimentalização do conhecimento e dos valores morais

O modelo de ciência em que fomos formados, que tem toda uma ideologia liberal como sustentáculo, nos levou a adotar como “natural” a especialização do conhecimento. Assim, é “natural” que a escola tenha uma grade curricular em que num determinado período é hora de aprender Matemática, para, no momento seguinte, ser hora de aprender Geografia. Cada professor cuida de sua especialidade, e não é de sua responsabilidade relacionar a Geografia, por exemplo, com as demais áreas do conhecimento.

Esse tipo de postura (e de ideologia) se reflete também quando ouvimos queixas de profissionais da Educação dizendo que, hoje em dia, além de terem que cuidar de suas funções administrativas ou de docência, eles também têm que ser psicólogos, assistentes sociais e, muitas vezes, médicos dentro da escola. Parece que o que está por trás do discurso é a vontade de que a escola seja o lugar de se trabalhar somente o cognitivo. Cada tipo de trabalho deve ser encarado por um profissional específico. No caso, a escola cuida do cognitivo, e as demais questões devem ser tratadas pelos psicólogos, assistentes sociais e médicos.

Entendo que os profissionais da Educação precisam romper a dicotomia e a compartimentalização do conhecimento. Parece-me ingenuidade acreditar que o “Joãozinho” e a “Mariazinha” que vêm à escola, nossos alunos de carne e osso, possam ser psiquicamente “esquartejados” e, ao passar o portão de entrada, lhes seja cobrado deixar de fora suas histórias pessoais, seus sentimentos e emoções e até mesmo aquelas partes do corpo que só servem para atrapalhar a aprendizagem (por exemplo, as pernas, as mãos e, por que não, o estômago).

Devemos ter consciência de que esse modelo de aluno e de Educação não é real. Precisamos compreender de forma heurística a complexidade de todos aqueles que vivenciam o ambiente escolar. Não podemos desejar que nossos alunos, e também nossos colegas de trabalho, deixem para fora dos muros escolares uma parte deles mesmos. Isso não seria possível.

Estamos falando de uma transformação na própria forma de se ver o mundo, que não seja compartimentalizada. Isso pressupõe, claro, um outro tipo de formação para os profissionais que lidam com a Educação. Esses profissionais (dentre os quais me incluo) não têm que passar mais tempo nos cursos para que também aprendam a ser psicólogos, assistentes sociais e médicos. Se assim fosse, talvez os cursos de formação teriam que durar vinte anos! E creio que ainda sairiam necessitando de formação complementar, como a de psicopedagogo, fonoaudiólogo e, por que não também, de artes circenses.

Para além dessa discussão sobre a formação compartimentalizada dos conhecimentos que seguem vigentes na maioria dos cursos de Pedagogia, uma questão pedagógica central hoje, em nossa opinião, é: não é possível transformar a escola em um espaço onde todas as crianças possam sentir prazer e alegria, além de construir alguns dos conhecimentos que a humanidade desenvolveu historicamente?

A resposta que tenho é afirmativa, mas para isso é necessário mudar a concepção de Educação, do espaço escolar e do papel dos profissionais que ali trabalham. Isso não é tarefa simples nem ocorre em curto prazo, porque passa necessariamente pela construção de uma postura ética por parte dos profissionais da Educação. Uma postura que, ao mesmo tempo que não compartimentaliza os conhecimentos nem “esquarteja” os seres humanos, respeita sua diversidade física, social, intelectual e ideológica, e respeita também a natureza.

O esforço coletivo deve ser para que a Educação, desde a mais tenra idade, seja pautada por valores e virtudes que sejam considerados “universalizáveis”, por se apoiarem em princípios de justiça, altruísmo e de busca da felicidade pessoal. O esforço deve ser para que a experiência de construção desses valores e virtudes seja significativa para os sujeitos do conhecimento, de modo que consigam integrá-los no núcleo de suas identidades.

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

 

 

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