Os sons e a ginga afro-brasileira

1. Comentário sobre o livro ABC Afro-brasileiro

Atitudes veladas ou preconceitos raciais declarados ainda estão presentes no nosso dia a dia. No entanto, somos um povo em cuja alma a África se manifesta cotidianamente no jeito alegre, acolhedor, festivo, guerreiro, colorido e apimentado. Negros vindos de diversas nações africanas trouxeram sua cultura e redesenharam nossa identidade. São sabores, aromas, ritmos, palavras, danças, jogos, festas expressões artísticas e religiosas que constituem o jeito de ser afro-brasileiro. A leitura do livro oferece a oportunidade de incluir no currículo escolar as manifestações culturais de origem afrodescendente e suas influências na realidade brasileira, bem como refletir sobre a luta da população negra para garantir sua inclusão em todos os setores da sociedade, temáticas fundamentais na discussão sobre Ética e Cidadania com seus alunos.

2. Sugestão de atividade para sala de aula 

Os sons e a ginga afro-brasileira:

Este é um convite para descobrir e valorizar as manifestações culturais afro-brasileiras, através de sons, ritmos e danças presentes na cultura popular.

 Primeiras ideias:A herança cultural dos distintos grupos étnicos africanos que chegaram ao Brasil desde o século XVII, na época escravista, marcou permanentemente nossa identidade. A palavra identidade, segundo o Dicionário Didático de Edições SM, significa “o conjunto de características ou dados que permitem individualizar, identificar ou distinguir algo”. Pode-se afirmar que a nossa identidade pessoal está justamente em nossa singularidade, naquilo que nos torna diferente do outro. Como seus alunos compreendem a noção de identidade? Ampliando a discussão, questione seus alunos sobre quais as singularidades que nos constituem enquanto nação e quais as características do povo brasileiro. Insista para que eles ampliem as respostas para além dos clichês. A multiplicidade de etnias, crenças religiosas, lugares e histórias presentes na composição do povo brasileiro revelam nosso tempero multicultural. Anote as respostas na lousa para usá-las posteriormente.

Refletindo sobre valores:

Muitas questões sobre cultura se relacionam com questões de identidade. Quando ignoramos a identidade do outro, nossa “miopia” nos impede de pensar em solidariedade, responsabilidade e união simplesmente porque nos isolamos culturalmente e não aceitamos a diversidade. O termo cultura pode ser utilizado também como mediação de significados e valores, quando produz o sentido de saber se reconhecer, incorporando a noção de pertencimento. Segundo Stuart Hall, no livro A identidade cultural na pós-modernidade,

as culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmo. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação”, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas. (HALL, 2005, p. 50)

As singularidades dos vários “Brasis” que nos compõem refletem a trama cultural das tradições dos povos africanos, europeus e indígenas. Nesse sentido, trabalhar na escola com atividades da cultura popular podem desenvolver a percepção de nossa pluralidade e valorizar as identidades individuais e coletivas.

Atividade coletiva:

Sons, ritmos e muita ginga fazem parte do nosso dia a dia… São muitas as expressões artísticas africanas presentes em nossa cultura popular: Tambor de Crioula, Bumba Meu Boi do Maranhão, Samba de Roda do Recôncavo Baiano, Samba do Rio de Janeiro, Jongo do Sudeste, Coco, Maracatu, Ciranda, Carnaval, Congada, Folia de Reis, entre outras… Manifestações culturais tão fascinantes que, certamente, devem ocupar também os espaços escolares porque podem inspirar ricos trabalhos cooperativos.

Professor(a), para conhecer mais sobre danças africanas, assista a alguns vídeos disponíveis na internet nos sites indicados, entre outros. Se possível, apresente para toda a turma. Junto aos alunos vamos introduzir o Jongo, dança que tem suas raízes nos saberes, ritos e crenças dos povos africanos, sobretudo os de língua bantu. Considerado patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, desde 2005, o Jongo influenciou a formação do samba. Cantado de formas diversas, possui percussão de tambores e dança coletiva dependendo da comunidade que o pratica. Por exemplo, no Jongo da Serrinha, RJ,

os dançarinos movem-se em círculo até que dois deles se dirigem ao centro da roda, espontaneamente, onde executam um solo coreográfico. Fazem-no até que outro integrante da roda substitua uma das pessoas do par solista, aproximando-se com movimentos graciosos. Assim sucedem-se os dançarinos, em entradas e saídas coordenadas por eles mesmos, com movimentos e expressões faciais e pela percepção coletiva da duração adequada de cada exibição.

Vamos praticar, no pátio ou outro espaço onde os alunos possam fazer uma grande roda. Destaque a importância da marcação com os pés e as mãos para perceber o ritmo. Use as palmas das mãos, na impossibilidade de usar tambores e outros instrumentos, apresente as duas composições abaixo e explore a expressão corporal e a repetição vocal com a turma.

 SolistaNa minha fazenda
Tem um boi que sabe ler
Na minha fazenda
Tem um boi que sabe ler
CoroMas se você não acredita
‘Cê vai lá que você vê
 
Solista Tanta chuva que choveu
Na goteira não pingou
Tanta chuva que choveu
Coro Na goteira não pingou
Não pingou, não pingou,
Tanta chuva que choveu,
Na goteira não pingou
 

A roda pode se estender pelo tempo que quiserem, revezando os solistas. O grupo pode inventar passos e novas rimas para cantar. No retorno à sala de aula, solicite aos alunos comentários sobre as surpresas e descobertas sobre esse ritmo afro-brasileiro. Se houver interesse, convide-os para a pesquisarem sobre danças afro-brasileiras.

Sistematizando:

Como sabemos, as danças são basicamente aprendidas em sociedade. Dançar, apreciar e contextualizar diferentes manifestações culturais possibilita a identificação da singularidade, a discussão sobre preconceitos e diversidade, refletindo sobre as relações étnicas com equidade e cooperação. Isabel Marques (20035, p. 56) afirma que

criar a partir de tradições dos povos possibilita um outro tipo de olhar, um olhar não complacente e ingênuo frente às contribuições das etnias e culturas que formam o povo brasileiro. Do mesmo modo, permitem-nos perceber, nos processos pessoais e coletivos de criação em dança, quais histórias carregamos, que povos representamos, que escolhas fazemos em relação a nossas vivências e atitudes em uma sociedade global.

Como são muitas e variadas as manifestações da cultura popular afro-brasileira, verifique a possibilidade de trazer representantes de alguma comunidade afrodescendente do bairro para conversar com seus alunos. Este pode ser o início de uma expedição cultural ampliada pela percepção de uma cultura nacional e cidadã.

Para saber mais
 HALL,Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. DP&A, Rio de Janeiro, 2005
MARQUES, Isabel. Dançando na escola. Editora Cortez, São Paulo, 2005
 
Sites indicados
- Associação Cachuera! Para conhecer mais sobre a cultura popular, com ênfase nas manifestações das comunidades afrodescendentes do Sudeste brasileiro, particularmente de matriz bantu
http://www.cachuera.org.br/cachuerav02/index.php
- Maracatu de Baque Virado na internet,com acervo sonoro
http://maracatu.org.br/
- Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, que disponibiliza videos de canções e danças
http://www.cnfcp.gov.br/index.php
- Jongo da Serrinha
http://www.jongodaserrinha.org.br/v2/index.htm
- Coleção Percepções da Diferença, com dez volumes, produzidos pelo NEIB, Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro, da Universidade de São Paulo/USP
http://www.usp.br/neinb/?q=node/9
- Ensino Afro-Brasil: portal do Curso de Formação em História e Cultura Afro Brasileira e Africana
http://www.ensinoafrobrasil.org.br/portal/
- Fundação Pierre Verger – importante pesquisador de assuntos africanos, com acervo fotográfico
http://www.pierreverger.org- A Cor da Cultura: projeto educativo de valorização da cultura afro-brasileira, fruto de uma parceria entre Canal Futura e outras instituições. Disponibiliza material para o professor
http://www.acordacultura.org.br/
 
Crédito ilustração: Tania Ricci
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3 Comentários para Os sons e a ginga afro-brasileira
  1. Lucia Responder

    Amei essa reportagem,vocês estão de parabéns,irei usá-la nas minhas aulas.

  2. elisabete Responder

    Adorei o material e vai me ajudar muito no projeto que pretendo realizar sobre a cultura negra.

  3. elisabete Responder

    Adorei

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