Virtudes e Educação moral

De acordo com André Comte-Sponville, na sua obra Pequeno tratado das grandes virtudes, a virtude é uma força que age ou que pode agir, e nesse caso é independente do uso que dela se faz ou do fim a que visa ou serve: a virtude de uma faca é seu corte, e a boa faca é a que corta bem (essa virtude pode servir tanto para matar como para salvar alguém). Portanto, uma virtude não é necessariamente moral, mas na mão do ser humano dotado de razão ela deve sempre ser utilizada para o Bem.

A primeira virtude que queremos abordar é a honestidade, e a escolhemos porque consideramos que, como valor moral, ela está associada ao princípio moral de justiça. Ser honesto e não roubar algo das outras pessoas, por exemplo, envolve o respeito ao direito de propriedade dos outros e, nesse princípio, torna-se uma obrigação moral. Envolve também a legalidade, já que, ao menos em nossa cultura, podemos afirmar que o roubo é considerado uma ação ilegal, que fere os princípios de justiça elaborados em nossas legislações.

Temos, portanto, que a honestidade como virtude pode ser vinculada à justiça, reconhecendo que não são sinônimos, e também que ela não se limita conceitualmente ao exemplo que aqui estamos citando: não roubar. Mas nos interessa porque o preceito honesto de não roubar pertence a uma classe de deveres estabelecidos historicamente em quase todas as culturas, e que é essencial para a vida em sociedade. Ser honesto é uma virtude muito valorizada socialmente e pertence ao conjunto de preceitos morais considerados “clássicos”.

A segunda virtude que quero mencionar é a generosidade. Em primeiro lugar é necessário dissociá-la da solidariedade, virtude com a qual é comumente confundida. A solidariedade pressupõe uma interdependência entre as pessoas, um corporativismo, um ser solidário aos outros, e não necessariamente torna-se uma virtude moral. Por exemplo, posso ser solidário a alguém que cometeu uma falta moral, prejudicando outras pessoas, não o denunciando somente porque é meu amigo e gosto dele. A generosidade é diferente porque vai além da solidariedade e do interesse pessoal. Ela é o contrário do egoísmo e pressupõe dar algo de si sem esperar recompensas, dar algo de si pelo prazer de ajudar alguém, pela virtude de ser generoso. Segundo Comte-Sponville (1996, p. 104), “a generosidade aparece no cruzamento de duas virtudes gregas, que são a magnanimidade e a liberalidade. O magnânimo não é nem vaidoso nem baixo, o liberal não é nem avaro nem pródigo, por isso são sempre generosos, quando não se identificam”.

A generosidade não pode ser considerada pertencente a uma moral clássica. Ela se enquadra num valor mais subjetivo, reforçado culturalmente por alguns grupos, mas não está inscrita nas leis das sociedades como imperativos a serem cumpridos por todos os seus membros. Não existe a obrigação legal de que devemos ser generosos e ajudar os outros que necessitam de ajuda, embora exista uma cobrança subjetiva por parte de alguns grupos na sociedade para que isso aconteça. Todavia, para sermos generosos, e darmos algo para os outros sem obrigação, é essencial algum tipo de afetividade não subordinada à razão. Entendemos, pois, que a generosidade como virtude pode ser categorizada como uma moral não clássica, por não estar atrelada a um imperativo, à obrigação e ao dever legal.

Finalmente, a terceira virtude que merece destaque é a coragem, considerada por Comte-Sponville uma das quatro virtudes cardeais (junto com a justiça, a prudência e a temperança) e, universalmente, a mais admirada. Mas sua importância não é sinal de que seja somente moral, porque um ser humano tanto pode ter coragem para assassinar alguém quanto para lutar contra uma injustiça. No campo da virtude, a coragem está geralmente relacionada a formas desinteressadas de altruísmo ou de generosidade.

A coragem é sempre pessoal e seu valor moral não está na ausência do medo. Está, ao contrário, na capacidade de enfrentá-lo, de dominá-lo, de superá-lo. Como virtude e valor moral ela pode estar relacionada às outras, assim como em situações que envolvam correr riscos para ajudar outras pessoas, como pode estar relacionada ao próprio sujeito, com ações que envolvam sua autossatisfação ao vencer desafios pessoais. Neste último caso, ela se enquadra na categoria de moral Self-regarding, uma categoria moral difícil de ser compreendida. Estamos falando de uma moralidade intrapessoal, do sujeito consigo mesmo, com sua consciência autônoma. É a moralidade que pressupõe o compromisso do sujeito com sua autoestima, com as virtudes que objetivam o Bem. Trata-se da coragem como uma virtude moral em que o sujeito objetiva sua felicidade pessoal a partir de ações virtuosas que reforçam, por exemplo, sua autoestima e a imagem que se tem de si, e que não têm vínculos sociais ou com outras pessoas.

A intenção de apresentar essas três virtudes deve-se à significação que elas podem ter no campo da Educação moral, se trabalhadas cotidianamente e de forma intencional nas salas de aula e nos pátios escolares.

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

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