Indignação

Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca. (Darcy Ribeiro)

A Clarice dizia-nos que aquilo que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo. Talvez por isso, em plena ditadura, o mestre Agostinho recusou-se a assinar um documento que os esbirros da época exigiam de qualquer candidato ao exercício da profissão de professor. Esse e outros corajosos gestos valeram-lhe o exílio no Brasil (o que acabou sendo benéfico para o Brasil…).

Recentemente, um ativista indiano entrou em greve de fome e disse estar disposto a morrer pelo combate à corrupção. E, no Brasil, a OAB criou um site: “Observatório da corrupção”. Perante a ética deturpada e uma inversão de valores, como não há memória, esses sinais dizem-nos que nem tudo está perdido.

Mas, na contramão destes esperançosos gestos, o correspondente no Brasil do jornal El País escreveu: “Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?”. Quando o time perde, o brasileiro reclama, vai ao aeroporto de madrugada para xingar os atletas. Por que não exige a reforma política, o fim das aposentadorias milionárias, a prisão de políticos corruptos?

Vivemos em uma sociedade enferma de uma total inversão de valores. Pessoas justas são confundidas com as injustas, quase não faz sentido distinguir honestidade e desonestidade, vale tudo na senda do sucesso que tudo deturpa e corrompe. E o medo tudo faz esquecer, como se jamais algo hediondo tivesse acontecido.

A palavra ética deriva do grego ethos (caráter, modo de ser de uma pessoa), e representa um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. Eticamente, como pode um povo suportar, por exemplo, que deputados, que não exercem o cargo para que foram eleitos, exerçam outros, acumulando a remuneração de um outro cargo com o de deputado?

Sempre que me perguntam qual foi o maior obstáculo à concretização do projeto da Escola da Ponte, eu respondo: o maior obstáculo fui eu. Fui eu, enquanto não me indignei, enquanto não agi, para assegurar o saber e a felicidade aos meus alunos. Só eu, num agir não solitário, poderei mudar algo. Ainda que alguém creia que o esforço de um só nada vale, é preciso agir. Mesmo que o medo nos assalte, é preciso reagir. Sem a coragem da indignação, a sabedoria é estéril. Como diria o Galeano: “O inimigo principal, qual é? A ditadura militar? A burguesia? O imperialismo? Não, companheiros. Nosso inimigo principal é o medo!”.

Tropa de elite 2 foi o meu filme do Natal de dois anos atrás. Nada melhor para escapar ao frenesi neurótico dos shoppings do que mergulhar num caos de violência e morte, assistir às tentativas vãs de um Capitão Nascimento idealista, que se apercebe de que a guerra que trava não é dos bons contra os maus, que o mundo não é preto no branco. O filme termina com a câmara de filmar sobrevoando Brasília. E o público irrompe numa entusiástica ovação. Depois, toda aquela gente, que aplaude um herói entregue às suas lutas contra policiais e políticos corruptos, volta para as suas casas, para a segurança de um emprego, para vidinhas feitas de novelas e big brother. Onde acaba a realidade? Onde começa a ficção?

Escutemos Drummond: “Provisoriamente não cantaremos o amor / Que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. / Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços [...] / existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro”. E não nos esqueçamos de que “Dignidade” era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena, e “Liberdade” era o nome da maior prisão da ditadura uruguaia.

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

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