Honestidade

Vós, diz Cristo, falando com os pregadores, sois o sal da terra.
E chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal.
O efeito do sal é impedir a corrupção.

(Padre António Vieira)

A imprensa fez eco de um “caso de cola” protagonizado por alunos do Centro de Estudos Judiciários. Cito o articulista: “Esses formandos foram reduzidos ao estatuto de alunos e os formadores elevados à categoria de catedráticos. E, assim, em vez de efetiva preparação profissional, o CEJ ministra um ensino essencialmente teorético, em que a cabeça dos formandos é atulhada com tecnicidade jurídica pelos seus oniscientes mestres. Não admira que, assim tratados, os chamados auditores de Justiça se comportem como alunos, para quem copiar nos exames sempre foi uma espécie de direito natural”.  

Diz a sabedoria popular que “cesteiro que faz um cesto faz um cento”. Quem pratica a fraude numa prova não a praticará no exercício das suas funções? Temos razões para preocupar-nos com a degenerescência da honestidade em pessoas encarregadas de fazer justiça, como em qualquer atividade humana. E, quando ela se manifesta na escola, talvez explique a degenerescência restante…

Um professor-vigia de uma prova nacional foi instruído pelo “manual do aplicador” a colocar os alunos a uma “distância prudente” uns dos outros. Inteligente, como qualquer professor, apercebeu-se de que, sem nada dizer, o não-verbal falava mais alto do que o verbal, e que ele agia como quem considerava estar na presença de seres potencialmente desonestos. Com tal procedimento, estaria praticando o chamado “currículo oculto”, transmitindo valores negativos aos alunos: mentira, deslealdade, falsidade, “espertismo”… E como esse professor, para além de inteligente, é sensível, sentiu-se um ser miserável.

Uma escola brasileira decidiu enviar os deveres de casa através da internet. Aqueles alunos que realizassem todas as tarefas seriam recompensados com um ponto extra na média do bimestre. A “inovação” foi um sucesso enquanto durou. Certo dia, um professor dessa escola descobriu que as respostas constavam de um site de relacionamento criado por uma aluna. A criativa aluna foi ameaçada e instada a retirar as respostas do mesmo. Acabou sendo suspensa, disciplinarmente mandada para casa.

Li num dístico, à entrada de um hotel: “Caro hóspede, devido à triste estatística de três ou quatro toalhas extraviadas por mês, estamos intensificando a revista após o fechamento da sua conta”. O absurdo virou instituição. Habituamo-nos a conviver com roubos e corrupções. O desrespeito pela pessoa humana se banalizou. O Brasil está imerso em uma profunda crise moral. Fingir que não se vê poderá ser considerado corrupção moral passiva.

O Gastão é professor e homem que se diz íntegro. Um amigo do Gastão ganhou a eleição para a prefeitura e convidou-o para ser o chefe da divisão de Educação, criada pelo novo prefeito. Porém seria necessário conferir seriedade à escolha. Foi aberto um concurso público, concurso universal. Supostamente, qualquer cidadão, qualquer professor poderia concorrer. Em pé de igualdade!

Falta referir que o critério básico para a admissão do concurso foi ser titular de licenciatura em… Ciências da Religião. O Gastão foi o primeiro (aliás, o único) classificado no concurso. Acrescente-se que o Gastão é professor de… Moral.

É preciso acreditar que a crise moral, em que este país está imerso, será civicamente contrariada, debelada, mas não através da Educação que ainda temos. Vale a pena acreditar que outra Educação é possível, cultivar a integridade, pois, como já nos avisava o velho Platão, é curta a distância entre a corrupção moral e a tirania.

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

Share this:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Digite seu nome, e-mail e um comentário.

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>