Os processos psicológicos de construção de valores

Afinal, como cada ser humano se apropria de determinados valores e não de outros? Por que algumas pessoas são violentas e outras não? Por que algumas pessoas vivem para servir aos demais e outras são egocêntricas e só agem em seu próprio interesse?

A psicologia fornece elementos importantes para a compreensão da natureza e da vida humanas em suas relações com o mundo social, natural e cultural em que vivemos, e tais conhecimentos são ferramentas fundamentais para aqueles que se preocupam com a Educação ética das novas gerações.

O trabalho do psicólogo e epistemólogo suíço Jean Piaget e seu texto “Les relations entre l’intelligence et l’affectivité dans le développement de l’enfant” (1954) dá pistas importantes para essa compreensão. Nele, Piaget evidencia que os valores pertencem à dimensão geral da afetividade humana e são construídos a partir das projeções afetivas que o sujeito faz sobre os objetos ou pessoas.

Ampliando essa visão, hoje afirmo que os valores são construídos a partir da projeção de sentimentos positivos que o sujeito faz sobre objetos, e/ou pessoas, e/ou relações, e/ou sobre si mesmo. Com isso, entende-se que um sujeito pode projetar sentimentos positivos sobre: objetos (ex: a escola); pessoas (ex: um amigo ou o pai, ou o professor); relações (ex: a forma carinhosa com que um homem trata uma mulher ou um professor a seus alunos); sobre si mesmo (e aqui temos a base da autoestima).

Tentando explicitar a definição em linguagem bem simples, valor no sentido psicológico é aquilo que gostamos, que valorizamos e, por isso, pertencente à dimensão afetiva constituinte do psiquismo humano.

Assumindo o pressuposto epistemológico interacionista e construtivista trazido por Piaget, deve-se recusar tanto as teses aprioristas de que os valores são inatos quanto as teses empiristas de que são resultantes das pressões do meio social sobre as pessoas. Nessa concepção, de um construtivismo radical, os valores nem estão predeterminados nem são simples internalizações (de fora para dentro), mas resultantes das ações do sujeito sobre o mundo objetivo e subjetivo em que vive.

Essa ideia de um sujeito ativo é que permite entender o princípio de que os valores são resultantes de projeções afetivas feitas nas interações com o mundo, em oposição à ideia de simples internalização dos valores, sofrida por sujeitos “passivos”, moldados pela sociedade, pela cultura e pelo meio em que vivem. É a ação do sujeito (representada pelo princípio de projeção afetiva) que nos ajuda a entender por que duas pessoas que vivem em um “mesmo” ambiente, na mesma sociedade, podem construir valores tão diferentes uma da outra. Se o processo fosse de simples internalização a partir da sociedade e da cultura, entendo que teríamos uma maior homogeneidade nos valores, e isso não é o que se constata na realidade.

Se entendemos que o valor se refere àquilo que uma pessoa gosta, valoriza, a valência positiva dos sentimentos torna-se essencial para que o alvo da projeção seja considerado um valor pelo sujeito. Ou seja, uma ideia ou uma pessoa tornar-se-ão um valor para o sujeito se ele projetar sobre elas sentimentos positivos. Em direção contrária, as pessoas também projetam sentimentos negativos sobre objetos, e/ou pessoas, e/ou relações, e/ou sobre si mesmas. Neste caso, o que se constrói, também com uma forte carga afetiva envolvida, é o que pode ser chamado de contra-valores. Assim, estes se referem àquilo de que não gostamos, de que temos raiva, que odiamos, por exemplo.

Fazendo uma analogia com a escola, se a criança gosta daquele ambiente, se é bem tratada, respeitada, se ela vê sentido no que aprende ali, a instituição escolar pode virar alvo de projeções afetivas positivas e tornar-se um valor para ela. Essa criança, inclusive, terá o desejo de voltar à escola todos os dias. Caso contrário, se ela é constantemente humilhada, desrespeitada, questionada em suas capacidades e competências intelectuais e sociais, é bem provável que esse espaço seja alvo de projeções afetivas negativas, que não seja valorizado, que não se constitua como um valor para ela, e, sim, um contra-valor. Nesse caso, por ser um espaço odiado, desqualificado, ele pode ser depredado, pichado, ignorado.

Espero ter deixado claro nas linhas acima que em nossa história de vida cada ser humano constrói um sistema de valores, a partir das interações que estabelece com o mundo e consigo mesmo desde o nascimento, e que tais valores são resultado da projeção de sentimentos positivos sobre objetos, pessoas, relações e sobre seus próprios pensamentos e ações.

Entender o funcionamento psicológico do ser humano e como cada pessoa se relaciona consigo mesma e com o mundo à sua volta pode ajudar na construção de procedimentos e estratégias educativas mais “eficientes”, no sentido de permitir a construção efetiva de valores éticos desejáveis por uma sociedade que almeja promover o desenvolvimento humano calcado na justiça social, na igualdade, na equidade e na felicidade para cada um e todos os seres humanos.

 

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

 

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