A inserção de sentimentos e afetos no currículo escolar

Inúmeras pesquisas vêm demonstrando que o funcionamento psíquico humano não é composto somente pelos aspectos cognitivos, mas que os sentimentos e emoções também configuram nosso pensamento. Assim, a pergunta que fica no ar é “por que pensar em uma escola que privilegia somente um destes aspectos?”. Defendo a ideia de que o tema da afetividade e das emoções precisa ser incluído na pauta educacional e, portanto, que a dimensão afetiva da personalidade humana precisa ser trabalhada na escola da mesma forma como se trabalham a matemática, a língua, as ciências etc. Este é o tema que quero abordar neste blog.

De acordo com Montserrat Moreno, autora espanhola, no livro “Temas Transversais em educação”, o modelo educacional adotado por nossas escolas tem origem na Grécia clássica há mais de 2.000 anos, e os conteúdos selecionados por aquela cultura, que perduram até hoje, visavam o desenvolvimento apenas da dimensão cognitiva. Daí a prioridade dada à matemática, à língua e às ciências no currículo das escolas.

Entendo que não há nada que justifique voltar-se a educação para somente este aspecto da natureza humana, desconsiderando-se outros, como a afetividade. É preciso ter coragem para mudar a educação formal e tornar o conhecimento dos afetos e emoções em conteúdos a serem construídos por alunos e alunas.

Como educadores, devemos nos comprometer com a formação de jovens que, ao mesmo tempo que conheçam os conteúdos da ciência contemporânea, também reflitam, por exemplo, sobre os limites éticos da aplicação dessa ciência; pessoas conscientes de seu papel para a construção de uma sociedade mais justa e solidária; que saibam lidar com seus próprios sentimentos e afetos; e que saibam lutar (virtuosamente) pela felicidade própria e das outras pessoas.

Do ponto de vista da prática educativa, acreditamos que um dos caminhos possíveis para se atingir tais objetivos passa pela inserção transversal de temáticas relacionadas à afetividade no currículo escolar. Uma educação que tenha como objeto de construção de conhecimentos também os sentimentos pessoais e interpessoais, trabalhados na escola não como apêndice e sim como uma finalidade da estrutura curricular, pode exemplificar essa nova maneira de conceber a educação. Abordar os sentimentos humanos como um conteúdo escolar, de forma sistematizada, é algo insólito em nossa realidade educacional.

No livro Falemos de sentimentos: a afetividade como um tema transversal, Montserrat Moreno exemplifica como pode ser organizado um programa curricular que atenda a esses objetivos. Ela demonstra que a educação da afetividade precisa levar em consideração a vertente racional e emotiva dos conceitos e fatos que os alunos e as alunas estão aprendendo, dispondo de um planejamento de atividades e técnicas didáticas que incluam e detalhem os conteúdos e objetivos curriculares específicos a cada uma delas.

Assim, entendo que um planejamento didático e pedagógico elaborado a partir dessa concepção de educação, e sua consequente realização no cotidiano das salas de aula, poderá levar alunos e alunas a construírem personalidades mais autônomas, justas e solidárias, a serem mais conscientes de si e de seus próprios sentimentos.

Profa. Dra. Valéria Amorim Arantes
Faculdade de Educação
Universidade de São Paulo

 

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