Esperança

O que faz andar a estrada? É o sonho.
Enquanto a gente sonhar, a estrada permanecerá viva.
É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro. (Mia Couto)

 Godlad dizia que todo educador é um otimista. Ouso discordar. Estou muito mais próximo da convicção do amigo Rubem, que nos diz ser o educador um esperançoso. Porque o otimismo é da natureza do tempo e a esperança é da natureza da eternidade, e, entre o sim e o não, muita coisa existe… existe a esperança de um tempo novo, um tempo de atos criadores e de vida gratuita.

As atas da Conferência de Ministros da Educação, há quarenta anos realizada em Caracas, reza assim: “toma corpo a ideia de uma educação libertadora, que contribua para formar a consciência crítica e estimular a participação responsável do indivíduo nos processos culturais, sociais, políticos e econômicos”. Três anos antes, a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, reunida em Medellín, também registrava em ata: “A Educação em todos os seus níveis deve chegar a ser criadora, pois devemos antecipar o novo tipo de sociedade que buscamos na América Latina”. Decorridas quatro décadas, move-nos a esperança de que, algum dia, essas vozes sejam ouvidas.

Esperança, em seu sentido mais genuíno, significa fé na bondade da natureza humana, significa confiar, acreditar ser possível ensinar (e aprender!) o diálogo, o reconhecimento da diversidade, a amorosidade, a solidariedade, a alegria, a justiça, a ética, a responsabilidade social, o respeito, a cidadania, a humanização da escola. Utopia! – exclamarão alguns. Mas, como nos avisa Robert Musil, a utopia é uma possibilidade que pode efetivar-se no momento em que forem removidas as circunstâncias que obstam à sua realização…

Knecht, personagem criada por Herman Hesse, desejava educar uma criança que ainda não tivesse sido deformada pela Escola, instituição que se mantém conivente com a perpetuação de um estado de desequilíbrio entre um imenso progresso técnico e a nossa sobrevivência numa espécie de proto-história da humanidade, feita de sofrimento humano e corações vazios, na qual ainda precisamos de aparatos socias como tribunais e prisões. É bem verdade que uma modernidade prometeica fez-nos desesperançosos, mas mantenhamos a esperança de chegarmos vivos ao fim da vida… Escutemos o Mestre Agostinho, quando nos diz ser possível que as crianças sejam tão livres e desenvolvidas, que possam governar o mundo pela inteligência e imaginação, e não por saberem muita aritmética ou ortografia. Mestre Agostinho tinha esperança de que a criança grande, que habita em cada um de nós, pudesse dar ao mundo o exemplo do que deve ser “vida gratuita”, para que ninguém tenha de pagar para viver e trabalhar para viver, para que ninguém mais passe a vida amuralhado e encerrado entre grades e renasça para ser aquilo que devia ser.

“Somos do tamanho dos nossos sonhos”, como afirmou o Fernando Pessoa. No tempo em que o projeto da Escola da Ponte teve início, era a esperança que nos movia. Diziam-me que, com professores como aqueles que tínhamos, na época, não seria possível fazer avançar o projeto. Mas foi com aqueles professores, acreditando na capacidade de se transcenderem, que o projeto da Ponte começou. Foi esperançosamente que ele prosperou. Nóis pode!… – como diria o amigo Tião.

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

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