O desafio da indisciplina na sala de aula

Os distúrbios disciplinares são um dos grandes problemas pedagógicos e morais da atualidade e, junto da violência (temas muitas vezes inter-relacionados), vêm comprometendo a busca por uma educação de qualidade.

Em primeiro lugar, precisamos entender o que é disciplina a partir de seu avesso: a indisciplina. Buscando o sentido do termo indisciplina em dicionários de língua portuguesa encontramos definições como “todo ato ou dito contrário à disciplina que leva à desordem, à desobediência, à rebelião”. E o que seria a disciplina? Podemos encontrar definições comuns como “regime de ordem imposta ou livremente consentida que convém ao funcionamento regular de uma organização (militar, escolar, etc)”. Grosso modo, podemos entender, portanto, que a indisciplina relaciona-se com o não cumprimento das leis, normas e regras estabelecidas na sociedade por parte do indivíduo ou por grupos organizados para determinados fins, como é o caso da escola. Nesse sentido, quando se fala de indisciplina dentro da escola, pode-se falar de desrespeito às regras estabelecidas. No caso da disciplina, de forma implícita ou explícita, é entendida a partir do respeito que as pessoas têm pelos instrumentos normativos criados para regular as relações dentro das instituições sociais. Existe muita diferença se tal respeito é obtido de forma impositiva ou se advém de uma decisão consciente de cada pessoa que decide cumprir determinada regra, o que discutiremos adiante, mas o importante é perceber que ao falar de disciplina estamos nos remetendo a uma perspectiva de respeito às regras sociais.

É importante ressaltar, no entanto, que quando falamos de indisciplina não estamos nos referindo a cenas corriqueiras como a de um aluno que se levanta da carteira durante a aula, que masca chiclete ou que usa boné em sala. Estamos nos referindo a situações como aquela observada em uma escola pública por uma ex-orientanda de mestrado, Cândida Daltro: Os alunos entraram agitados do recreio. Notei que a professora estava um tanto assustada. Ela recuou da porta, liberando a passagem e pediu que todos sentassem e se acalmassem. Um aluno deitou-se na mesa da professora. Esta, por sua vez, dirigiu-se até sua mesa e pediu licença ao aluno para poder sentar-se em sua cadeira para preencher a ficha de frequência dos alunos. O aluno se levantou e foi até o final da sala. Reuniu algumas carteiras, uma ao lado da outra, deixando-as no tamanho de uma mesa de pingue-pongue. Depois, convidou alguns colegas para jogarem pingue-pongue com ele…

Situações como essa nos levam a evitar explicações simples, ou soluções simplistas para a questão das indisciplinas escolares. Um dos desafios da escola contemporânea está exatamente em compreender como as relações entre professores e estudantes chegaram a tal nível em muitas escolas e quais caminhos podem ser trilhados para o enfrentamento de tais questões.

A indisciplina e a violência que vêm tirando o sono dos profissionais da educação não é problema isolado, cujas causas possam ser encontradas ou no aluno ou no professor ou nas relações. A raiz do problema está na própria concepção do que é educação, de qual é o papel da escola na sociedade e de como devem ser constituídas as relações professor-aluno em um mundo que vai, cada vez mais, se conscientizando da importância da liberdade, da justiça e do respeito aos direitos e deveres individuais e coletivos.

Enfrentar “as indisciplinas” da vida exige dos profissionais da educação uma nova postura, democrática e dialógica, que entenda os alunos não mais como sujeitos subservientes ou como adversários que devem ser vencidos e dominados. O caminho é reconhecer os alunos como possíveis parceiros de uma caminhada política e humana que almeja a construção de uma sociedade mais justa, solidária e feliz. Para isso, as relações na escola devem ser de respeito mútuo, a diversidade dos interesses pessoais e coletivos deve ser valorizada, e a escola deve buscar construir uma realidade que atenda aos interesses da sociedade e de cada um de seus membros.

Dada a complexidade e importância do tema, voltarei a ele posteriormente.

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

 

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