Alfabetização e educação em valores

No contexto da escola tradicional, o ensino da língua escrita configura-se de modo mecânico, não raro reduzindo o ler e escrever aos processos de decodificação e codificação. Concebida como pré-requisito para a vida escolar, a alfabetização aparece vinculada aos objetivos estritamente didáticos (o ler para aprender e o escrever para comprovar o aprendizado) e às práticas mecânicas (como as situações de cópia e silabação), que condicionam uma relação reducionista com o mundo letrado. Nas cartilhas e livros didáticos as formulações artificiais como “O boi bebe e baba” ou “Vovô viu a uva” parecem legítimas em nome de uma racionalidade do ensino, enquanto que a ênfase na ortografia e gramática acaba por distanciar o sujeito da sua própria língua. Em nome da imposição da norma culta, as práticas escolares rechaçam a pluralidade linguística, discriminam os falantes e, com eles, também seus valores e modos de vida.

O fenômeno do analfabetismo funcional, que atinge um a cada cinco brasileiros, é, entre outros fatores, reflexo de uma escola que, ao ensinar a ler e escrever, deixou de investir na formação do sujeito leitor e escritor. Paradoxalmente, o esforço para alfabetizar, marcado por práticas repetitivas e sem significado, parece trair a natureza essencialmente comunicativa da língua; um ensino que silencia, rouba a vontade de aprender e inibe a inserção do estudante no mundo letrado. O texto abaixo, produzido por um aluno de 2º ano do Ensino Fundamental, é um exemplo simbólico desta realidade:

 

Ao evidenciar as práticas da escrita mecânica, o exemplo é também oportuno para ilustrar os mecanismos de domesticação do comportamento na escola. Que triste a realidade de um aluno que ajusta o seu comportamento pelo medo do castigo que é a reprodução linguística! Nesse sentido, a imposição do silêncio, o condicionamento de uma postura moral (o certo e o errado, o que se deve ou não fazer em classe), a submissão ao autoritarismo e à língua aprisionada parecem estar em sintonia na mesma lógica de uma cultura escolar que hoje merece ser problematizada.

Na revisão dos paradigmas educacionais, a aproximação das duas metas aparentemente distantes e distintas – o ensino da língua escrita e a educação em valores – parece uma oportunidade privilegiada para se repensar a complexidade do ensino e as diretrizes do projeto de formação humana.

Partindo do princípio de que “a escrita é a arte de aprisionar a mão para libertar a idéia”¹, é possível vislumbrar o potencial da língua como recurso para a reflexão e a interação com o mundo, o que, obviamente, supera a dimensão instrumental de transmitir conhecimentos ou regras. Um recurso certamente indispensável para a formação moral se o que queremos não é a passividade de um aluno que se conforma com as normas da escola ou da sociedade. No esforço para repudiar a escrita aprisionada e a moral domesticada, importa defender as práticas linguísticas como mecanismos constitutivos do homem como quer Bakhtin². Constitutivos porque, em primeiro lugar, a escrita permite que o sujeito se coloque na corrente comunicativa do mundo letrado, assumindo-se no contexto interativo que rege as relações sociais e dá sentido à vida. Em segundo lugar porque esse posicionamento, em uma perspectiva educativa, não se dá sem a construção ética. Nesta perspectiva, a língua escrita deixa de ser um sistema estático dado pelo conjunto de regras e normas, passando a se constituir como um sistema dialógico inseparável do modo de ser, compreender e valorar o mundo. Não há enunciação linguística que não esteja impregnada de valores. Da mesma forma, parece inadmissível o amadurecimento de uma personalidade moral independente dos recursos expressivos e reflexivos da língua. Por isso, a alfabetização implica na construção de um modo de ser leitor e escritor, garantindo possibilidades de (re)criação de sentidos e valores no âmbito social. Assim como não há palavra vazia, não há exercício da cidadania pelo silenciamento da população. Daí a dimensão política da alfabetização que, como já defendia Paulo Freire³, representa a ampliação ou o resgate da voz do sujeito. A democracia pressupõe o uso competente e participativo da linguagem e o posicionamento pela palavra é indissociável da formação ética.

Silvia M. Gasparian Colello
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

¹ Ajuriaguerra (org). A escrita infantil: evolução e dificuldades. Porto Alegre: ARTED, 1998, p.17
² Bakhtin. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
³ Freire. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1983.

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