Beleza

“A voz da beleza fala delicadamente: ela se move dentro das almas mais iluminadas.”
(Nietzche)

Se fizermos uma análise de conteúdo dos projetos político-pedagógicos das nossas escolas, concluiremos que quase todos contêm termos como: autonomia, cidadania, solidariedade… Porém, nunca vi algum PPP que contemplasse a beleza no seu texto, como valor a desenvolver na prática. O fato é surpreendente porque, ou a educação é um ato estético, ou não é educação.

Se a beleza está nos olhos de quem vê, de quem sente, ela requer um exercício de sensibilidade, mas, em um currículo que privilegia as áreas ditas nobres (Matemática, Língua Portuguesa…), as artes são remetidas para horários escusos, contraturnos e tempos livres. Se bem que possa haver arte no ensino da Matemática – que, in illo tempore, era disciplina próxima da música – a clássica aula dificilmente conseguirá que o ser sensível se revele. E, sem a vivência da beleza, somos impedidos de experienciar o amor e a liberdade, que, juntos, nos conduzem pelos caminhos da sabedoria.

A par do consumo cultural das famílias, o curricular desprezo pela área artística talvez seja responsável, por exemplo, pelo “gosto” musical dos jovens do nosso país, um “gosto” que não ultrapassa o nível da indigência. Em lugares públicos, os nossos ouvidos são impunemente agredidos por crews, “sertanojos” universitários e outras aberrações, expelidas por potentes caixas de som (cujo nível de decibéis faz tremer as viaturas que as transportam), por celulares, por mp3 e outros veículos de propagação de ruído.

Nos idos de 1970, quando partilhava Vivaldi com os meus alunos, descobri que só amamos aquilo que conhecemos. Fiquei feliz por lhes ter dado a conhecer Vivaldi e muitos outros gênios da música. E fiquei triste quando conheci o Fábio. O moço queria ser violoncelista, mas decidiu estudar Direito. Disse-me: Depois, quando eu tiver um emprego, se verá…

Escreveu Murilo Mendes que a Educação deveria formar as pessoas para serem poetas a vida inteira. Pessoas (porque as escolas são as pessoas que nelas vivem o drama educacional) que, não somente saibam fazer versos, mas que vivam em poesia, que percorram o curso da existência a poetizar os seus gestos. Porém muitas escolas tendem a formar bonsais humanos, criaturas que ignoram que quem nunca se comoveu com uma suíte de Bach para violoncelo talvez nunca tenha existido.

Deve preocupar-nos o fato de muitos professores se deixarem manipular pela praga da cultura de massa. Desde o útero, sofremos a degradação da ética e do sensível. E, para completar a tragédia – que a família inaugura e a escola amplia –, quase toda a mídia parece empenhada numa campanha de imbecilização das massas, que talvez vise manter o povo culturalmente alienado, em um estado de subdesenvolvimento estético.

Fui fazer uma palestra numa cidade do interior, mas quase não conseguia fazer ouvir a minha voz. Lá fora, a elevada potência de uma aparelhagem de som ampliava a cantoria de uma esganiçada dupla sertaneja. Liguei a TV. Eram três os canais disponíveis. Em dois deles passavam novelas. No terceiro, um programa idiota, que dá pelo nome de Big Brother. Desliguei. Fiquei a pensar na sorte de muitos dos nossos concidadãos, privados da fruição do belo. E adormeci a pensar nas escolas… Felizmente, acompanhado do concerto dos pássaros, em um fim de tarde feito da beleza que têm as pequenas coisas.

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

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