A escola e o exercício da cidadania: dá para ensinar ética?


As injustiças e desigualdades de uma sociedade, como a brasileira, provocam indignação. Para enfrentar esse quadro, a educação pode ser vista como um caminho privilegiado de intervenção social, com condições de auxiliar na construção de valores éticos e democráticos por parte dos atores sociais, objetivando, por fim, a justiça social.

Formar o sujeito ético competente para agir nesta sociedade e participar de sua vida política e pública, no entanto, não se dá somente trabalhando os direitos e os deveres. Educar em valores, como se diz hoje em dia, não pode se limitar ao trabalho educacional de construção de regras, de se estudar os direitos e deveres, pensar no que é certo e no que é errado as pessoas fazerem.

Dentro de conceitos mais amplos, para que a pessoa exerça de fato a sua cidadania, ela precisa ter determinadas competências que vão além do conhecimento e do cumprimento de leis e regras das instituições sociais. Precisamos almejar a formação e a construção do que o autor espanhol Josep Puig chama de personalidades morais[1], que eu entendo como sendo pessoas que buscam virtuosamente a felicidade e o Bem, pessoal e coletivo, e constróem sua personalidade e a excelência ética a partir de determinados valores e virtudes desejados pela cultura em que vivem. Este princípio traz uma nova maneira de se conceber a formação e a educação em valores na escola.

É dentro desta perspectiva que o currículo escolar precisa ser pensado: objetivando a construção de personalidades morais, ou melhor, pessoas que pautem seus pensamentos e ações em valores éticos e democráticos.

O desafio atual de quem acredita nestes pressupostos está em construir estratégias pedagógicas que tragam para o cotidiano das salas de aula a preocupação com a educação em valores, com a busca de solução para os problemas sociais e a tentativa de ligação dos conteúdos científicos e culturais com a vida das pessoas. Enfim, está em promover estratégias pedagógicas que levem alunos e alunas a se relacionarem com conteúdos éticos e democráticos, como aqueles presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos, convertendo-os em valores do próprio sujeito.

Com a escola assumindo um currículo baseado em projetos, mas tendo temáticas de ética e de direitos humanos como referências para todas as aulas e ações desenvolvidas no cotidiano das aulas, conseguimos que valores socialmente desejáveis impregnem o ambiente escolar de forma que professores e estudantes sejam levados a pensar, respirar e conviver todos os dias com tais preocupações. Essas temáticas, no entanto, só chegarão ao currículo se impregnarem, direcionarem, todas as aulas de línguas, matemática, história, ciências, educação física, artes etc.

Este é um eixo central para a construção de ambientes escolares onde a ética e as preocupações com democracia, cidadania e direitos humanos façam parte do dia a dia das pessoas que ali convivem. A criação desses ambientes pode se dar por meio de três tipos de ações independentes mas complementares: a) a inserção transversal e interdisciplinar de conteúdos de natureza ética no currículo das escolas; b) a introdução de sistemáticas que visam a melhoria e a democratização das relações interpessoais no dia a dia das escolas; c) uma articulação dessas ações com a família e com a comunidade onde vive a criança, de forma que tais preocupações não fiquem limitadas aos espaços, tempos e relações escolares.

Enfim, buscar modelos educativos dialógicos, pautados em valores de democracia, justiça, solidariedade e outros mais (como aqueles presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos), pressupõe introduzir no dia a dia das escolas e das ações articuladas com a comunidade a preocupação cotidiana com valores socialmente desejáveis. Esse trabalho, no entanto, precisa ser sistematizado e intencional, de forma a ser naturalizado entre todos os membros da comunidade escolar. Isso fará com que a educação em valores deixe de ser algo pontual e esporádico, que ocorre em aulas ou momentos específicos, e passe a ser um movimento de tal forma imbricado na rotina das escolas que será reconhecido como natural.

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

 

[1] PUIG, Josep (1998). A construção da personalidade moral. São Paulo: Ática.

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