A construção da autonomia: uma conquista para toda a vida – Parte 1/3

Conversando com professores e pais percebemos um crescente sentimento de preocupação com algumas atitudes de nossas crianças e  jovens contrárias aos princípios morais. São relatadas condutas ofensivas como agressões, descaso, vandalismo, preconceito e humilhações. Muitos se perguntam o que pode ter levado uma criança   que parecia ter um “bom comportamento” a agir daquela maneira quando não estava sendo observada ou quando julgou que não seria punida.

A indisciplina dos alunos, além de interferir diretamente na qualidade do ensino, tem sido apontada, por diversos estudos, como um dos fatores de desmotivação com a carreira do professor. Como medida para contê-la, muitos defendem o policiamento intensivo e permanente dos alunos e a adoção de medidas mais duras em relação ao comportamento, incluindo expulsão ou comunicação ao Juizado da Infância e da Juventude. Outros sugerem a contratação de mais funcionários e a implantação de projetos de conscientização e valorização da escola, envolvendo pais, alunos e comunidade.

Se, por um lado, todos os educadores gostariam de que seus alunos respeitassem as regras, por entendê-las como necessárias para o convívio em sociedade, percebemos que a insegurança e o despreparo diante dessas situações os têm levado a adotar soluções temporárias e pontuais como mecanismo de contenção de conflitos. Inúmeras escolas, por exemplo, dão advertência e suspensão como procedimento disciplinar nas agressões físicas. Todavia, questionamos o que o aluno aprendeu ao receber tal “penalidade”. Será que a partir delas desenvolveu formas não violentas de expressar seus sentimentos? Ou estratégias mais cooperativas e justas para resolver seus conflitos? Provavelmente aprendeu apenas que deve evitar brigar dentro da escola. É o bom e velho “te pego lá fora”.

É visível que algo não está funcionando bem nesse formato. A criança fica sob nossa tutoria por anos, então por que não estamos conseguindo ajudá-la a identificar seus sentimentos de raiva ou rancor e a expressá-los de forma a não causar danos maiores? Por que não estamos conseguindo ensinar nossos jovens a resolver os conflitos de forma mais elaborada, por meio do diálogo? Será que estamos apenas controlando seus comportamentos de forma a evitar o conflito no espaço escolar? Será que realmente, como afirmam muitos especialistas, não temos nada a ver com o que ocorre fora dos muros da escola?

Não queremos formar jovens desrespeitosos ou que são “educados” apenas diante de contenção, recompensa ou vigilância. Pessoas assim agem por conformismo, medo, obediência acrítica a uma autoridade, ou ainda por necessidade de agradar o outro. Queremos jovens que saibam interagir nas mais diversas situações seguindo critérios e regras morais próprios, que levem em consideração o sentimento, as necessidades e as perspectivas de si mesmos e dos demais participantes. Gostaríamos que os alunos entendessem as regras como necessárias na organização dos trabalhos e para que haja justiça, harmonia e respeito nas relações. E que estas devam ser seguidas sem expectativa de um retorno concreto por isso.

Telma P. Vinha
Faculdade de Educação – UNICAMP
Telma Vinha é pedagoga, doutora em Educação e professora da Faculdade de Educação da Unicamp. Pesquisadora na área de relações interpessoais e desenvolvimento moral, é autora de O educador e a moralidade infantil e de Quando a escola é democrática: um olhar sobre a prática das regras e assembleias na escola
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